
Três cartas na mão era o que eu tinha. Naquele momento, não olhava para elas. Olhava para algumas cicatrizes que só eu enxergava. A mesa estava repleta de olhares trôpegos, entorpecidos pelo álcool que fora ingerido. Risadas são comuns, pois até o silêncio se torna engraçado em momentos assim. Bocas acostumadas a se afogar em convicções furadas e tentativas frustradas de auto-afirmação. Costumamos dizer que só buscamos diversão. Mas claro que isso é besteira. Não precisamos disso pra encontrá-la.
Minhas cartas tentam chamar minha atenção em meio aos ruídos de copos e gritos. Não as atendo. Estou olhando, enxergando cicatrizes que ninguém mais vê. E elas estão úmidas. As lágrimas se rebelam quando ela percebe que as lembranças martelam sua mente.
O portão se abre. Pessoas entorpecidas decidem se arriscar. Mais lágrimas fogem ao seu controle. Cada vez mais, percebo que cada uma delas tem algo em comum com as tais cicatrizes que, no referido momento, só eu conseguia ver.
Ela tentava respirar, implorando pra que eles não fizessem aquilo. Ela não quer que eles repitam algo.
Mas o que poderia ser?
Finjo estar com sede, e me levanto, depois de ver que ela era interrogada por algumas outras pessoas que queriam saber o motivo de sua reação.
Ela apenas pede pra que eles não façam aquilo, para que não arrisquem suas vidas.
O álcool não os deixa desistir. Ou seria a ignorância a principal responsável? Naquele momento, não importava.
Eu espero. Não sei se é hora de invadir suas memórias.
Suas lágrimas dão uma trégua, e ela começa a olhar fixamente para o copo que acabara de encostar em seus lábios. Se arrepende. Não é do feitio dela. Sua vontade nunca foi de experimentar aquilo.
Penso comigo: por que diabos fui deixar isso acontecer? Eu deveria tê-la dito algo, impedindo que ela fizesse algo que não quer fazer. Minha vontade era botar a culpa naquilo que recheava meu copo, mas não poderia ser hipócrita. Eu fui omisso.
*****
Curtis se entrega ao décimo copo e decide voltar para casa, num surto de fúria e certeza. A porta esbofeteia o carro, e a mão responsável por arremessá-la se fecha em volta da maçaneta. Lily havia girado a chave, trancado-o do lado de fora.
Ele soca a porta violentamente, sem entender o motivo de estar ultrapassando limites. Só sabe que está certo e que a bebida o dá a desculpa necessária para agir daquela maneira.
Lily chora. Suas cicatrizes transformam seu rosto num mosaico de dor e medo. Escondida debaixo da mesa, ela liga para a polícia, pois já não tem nervos para lidar com seu marido.
São dias, meses, anos de terror.
Curtis teve a chance de ser melhor, mas sua omissão foi a responsável por cavar sua própria cova. E ela estava prestes a ser preenchida.
****
Na volta, percebi que ela havia se levantando, e estava em pé, a dez passos da mesa que a acolheu anteriormente. As risadas continuam. Decido me afastar daquele barulho e ir, finalmente, trocar algumas palavras com a tal garota das cicatrizes. Estava curioso, assumo. Queria entender melhor o que se passava dentro de suas memórias, pois somente elas podem nos amedrontar tanto.
E como desabafar pode ser essencial, mesmo que seja um desabafo tímido, frágil.
Suas palavras montam uma cena em minha cabeça...
Ela o amava. Seu primo era algo valioso em sua vida. Naquele dia, ele queria arriscar. Sua visão turva não o impediu de abrir a porta do carro, sentar em seu banco e acelerar. Acelerou sem medo, sem se preocupar com avisos ou cuidados em especial. Numa curva que misteriosamente o encarava, a emoção fazia com que seu coração palpitasse mais rápido, sendo que o álcool drogava sua mente a ponto de não fazê-lo desistir. Ele sente o vento vindo em direção ao seu corpo. Sua respiração é profunda, a emoção é grande demais, os olhos brilham com a adrenalina produzida, ele pisa mais fundo e então...nada. Tudo, enfim, acaba. A única torcida é pra que não seja de forma trágica.
No caso dele, havia sido.
****
O resquício de bondade que ainda residia em seu ser o faz não pensar em tentar mais. Ele decide ir. Lily percebe que os socos já não fazem eco, e corre para olhar pela janela, vendo que Curtis acelerava para longe de sua rua.
Seu destino era o vazio. No terceiro cruzamento, ele repete a atitude tomada duas vezes antes. Só que dessa vez, a sorte não sentava ao seu lado. Ela havia desistido. Dois caminhões passavam. O primeiro se choca e reduz a frente do Opala a cacos e ferragens retorcidas. O segundo usa sua força para arremessá-lo com ainda mais força em direção a um muro recheado de tijolos que nem tentam resistir.
O vazio se encontra em sua mente. As cicatrizes que preenchiam o rosto de Lily, agora vão decorar o corpo de Curtis.
****

Ela, logo após me contar um pouco da história, apenas me diz que foi um dos piores momentos de sua vida. E eu consigo enxergar em seu rosto essa afirmação. É como se ela sentisse vontade de manter aquelas cicatrizes, como forma de demonstrar o estrago que apenas uma atitude provocou em seu coração.
Lembrando, hoje, de sua reação àquele momento, penso que somos criaturas incoerentes. Conseguimos, com atitudes inúteis, marcar profundamente, e de várias maneiras, as pessoas que nos cercam. Mas, se parássemos para pensar que elas nos amam, o copo que nos entorpece poderia muito bem servir para brindar a alegria de estarmos juntos e em paz, torcendo para que as próximas cicatrizes sejam resultado de um orgulho, talvez bobo, de querer sempre ter algo a mais que nos ajude a lembrar de pessoas e momentos que nos fizeram felizes.
Alice/Carter
Alice e Carter Parabéns!
ResponderExcluirO texto por si só fala tanto que um comentário não seria suficiente, mais uma vez fico impressionada com essa capacidade brilhante de escrever e nos fazer enxergar o mundo que coloca sobre as palavras, seja ele belo, misterioso, real, surreal, doloroso, feliz e etc.
Grande Beijo.