Um olhar, um pombo e pedrinhas
Os cabelos de Sally se movimentam à medida em que se encontram com o vento. Jack a observa enquanto segura sua mão. Ambos caminham em direção ao crepúsculo que se apresenta a alguns milhares de passos adiante.
Os sorrisos estampados naqueles rostos exemplificam bem a importância daquela pequena vitória que ambos conseguiram alcançar depois de tanto acreditarem.
Uma constatação:
O final feliz eu já lhe dei. Mas e o caminho árduo até ele?
Essa parte merece sim ser contada. E com detalhes.
Sally teve que ser forte pra estar ali, presente naquele momento.
Ela é uma princesa. Seu lar é um imenso castelo rodeado por muros e guardas fortemente armados, mas convém dizer que não era isso que a prendia. Sua família era constituída pela nobreza mais destacável daquela sociedade. Pessoas boas faziam parte dela, é verdade. Mas, infelizmente, nenhuma possuía o dom da curiosidade. Quando digo curiosidade, me refiro pura e simplesmente à vontade de conhecer uma pessoa. Neste caso, Sally.
Entorpecida pelo ceticismo de todos que ali residiam, a princesa passava horas e horas observando os camponeses que moravam ao redor do castelo, através da janela de seu quarto, que ficava no alto de uma das maiores torres daquela construção. Um de seus hobbies era justamente se isolar de sua família.
Ela os admirava. Os camponeses.
Sally gostava de observar a liberdade com que guiavam suas vidas, tendo em vista que a sua era muito controlada, observada, manipulada pelo rei e pela rainha, além de seus irmãos, que eram referência naquele lugar, tendo seus respectivos egos inchados pela admiração de muitos dali.
Mas, num certo dia, Sally não descera para almoçar. Dessa vez, ficara um pouco mais na janela, observando um certo rapaz que, sentado em uma pedra, alimentava um pombo tão branco quando neve, bem em frente a um lago ali existente.
Era Jack.
Sabe quando temos aquela sensação de que alguém nos observa? Ele a teve naquele instante. E retribuiu, avistando aquela linda moça, sentindo o típico friozinho na barriga ao constatar que era a jovem mais linda da região, e de quem sempre ouvira falar, alimentando assim sua curiosidade, dia após dia.
Mas por que me olha? - Perguntou-se Jack, decidido a aproveitar aquele pequeno momento de orgulho que obtivera.
Na noite seguinte, ele voltou para sua pequena porém elegante casa, decidido a explorar seus pensamentos, a fim de entender o motivo daquele olhar fixo, perfeito.
A noite dá lugar ao sol do amanhecer.
E correndo ele vai até o mesmo local, aparentemente decidido a fazer algo, caso encontrasse aquela jovem ali, novamente, o olhando durante vários e amontoados minutos.
E sim, ela estava lá, no mesmo horário, com o mesmo límpido e angelical semblante.
Em um pedaço de papel, ele pinta as seguintes palavras:
"Não sei se sou digno de tamanha honra, mas fico feliz por ser a paisagem que ilumina sua manhã. Saiba que você acaba de fazer o mesmo por mim".
O mesmo papel é enrolado e encaixado num suporte encontrado na perna esquerda do pombo de neve que o acompanhava. Sim, ele acabara de ser promovido a pombo-correio. A mensagem então voa até a janela de Sally, que, curiosa, não perde tempo e lê. Um sorriso é estampado naquela face tão suave quanto um pedaço de seda.
A resposta chega rápido às mãos de Jack.
"Sinta-se honrado em ter-me olhando tua face, pois nunca me senti tão bem ao oferecer tal privilégio a alguém. Qual seu nome?"
Um plebeu nunca poderia ousar tanto. Ficar de conversas escondidas com uma princesa como Sally era pedir para viver com base em riscos. Era perigoso demais.
E quem disse que Jack se importava com isso?
A partir daquele dia, as conversas se tornaram diárias, intensas, únicas. Para duas pessoas que nunca se tocavam, era impressionante como conseguiam trocar carinho tão intensamente.
A questão é que, enfim, um dos dias ficou vago.
Jack foi até a mesma pedra que o acompanhou nas semanas anteriores e esperou, esperou, esperou. Nada aconteceu. Sally não estava lá.
O que teria acontecido? Teriam descoberto o romance fatídico e ilógico que ela mantinha com um plebeu? Será que a puniram?
A cabeça de Jack o apunhalava com respostas criadas apenas para desesperá-lo. Ela tinha se tornado especial demais pra sumir assim, do nada.
Como um bom apaixonado, ele foi, durante dias e dias, até o mesmo local, no mesmo horário, conferir se Sally havia voltado. O vazio novamente era sua resposta.
Foi então que, em um dia tão solitário e esperançoso como o anterior, Jack teve uma enorme surpresa.
- Hey, psiu, aqui! - sussurrava uma voz do lado de fora, enquanto barulhos de pedrinhas se chocando contra a janela do quarto de Jack se apresentavam.
- O quê? Quem é? - Diz o plebeu, ainda nocauteado pelo sono recém-adquirido.
- Sou eu, Sally!
- Jesus, Maria, José! É você mesmo!
Jack, num surto de surpresa e alívio, percebe que se trata mesmo de sua princesa e decide então saltar por sobre aquele buraco na parede, abraçando-a calorosamente e sentindo o primeiro gosto real, físico daquele sentimento.
- Eu..eu achei que você havia desistido de mim! Cheguei até a pensar que havia acontecido algo ruim a você, que tivessem descoberto...Até lutei para conseguir informações, mas sou apenas um plebeu. Não tenho condições de interferir na vida da família real.
- Eu nunca te esqueci, Jack. Eu precisava sumir, pois só assim me aproximaria de você, como faço agora. Esse paradoxo era inevitável.
- Como assim, Sally?
- Eu precisava garantir que conseguiria finalmente me libertar, viver. Aquele castelo foi minha prisão durante anos, e não seria fácil largar tudo sem sofrer consequências. Eu precisava de certezas. Pra isso, decidi que era hora de não só sonhar contigo, mas viver ao teu lado sonhando. Antes não tinha forças pra acreditar que uma vida diferente daquilo era possível, mas suas mensagens me detalhando como era a vida aqui fora conseguiram me fazer acreditar que era sim uma chance real. Foi então que comecei a pensar em como poderia sair, por ao menos uma noite, apenas para te abraçar pela primeira vez. Escolhi essa noite. E não me arrependo!
- Você encarou o poder de todos eles apenas para me ver?
- E encararia o poder de todo o mundo por isso. Você me faz querer sorrir, e isso é mais valioso do que qualquer riqueza que tente me manipular!
- Vamos fugir!
- É o que mais quero, Jack. Mas como?
- Venha comigo, eu lhe mostro.
E então Jack a levou até um velho celeiro que aparentemente havia sido desativado por sua família. Quando estavam próximos da porta deste, os gritos, cornetas e raiva já podiam ser ouvidos e sentidos dali.
Todo o reino estava à procura da Princesa Sally.
O que aconteceria a partir daquele momento é algo que posso lhe contar apenas em uma outra oportunidade, pois primeiro preciso causar-lhe a tão necessária expectativa.
Mas garanto, não é como um conto de fadas qualquer que você se lembrará de tudo isso. Portanto, aguarde-me encontrar as palavras certas para lhe detalhar a emoção criada pela história de uma princesa solitária e de um plebeu sonhador.
Bloom, Edward.

uma princesa solitária e de um plebeu sonhador.
ResponderExcluirQue lindo *.*
Puxa é bom viajar em histórias assim, de amor, de sonho, de ternura e essa ternura vocês passaram tão bem, fiquei imaginando o que eles escreviam nos bilhetes, as palavras de carinho, viajei nesse sonho lindo, nessa realidade linda que li.
Grande beijo.