Existem histórias que, por mais simples que sejam, deixam uma forte impressão de que não existem por acaso. Chega a não ser difícil imaginá-las como sendo roteiros produzidos com o intuito de colocar em cartaz mais um filme que provavelmente causará suspiros, olhares e demais reações distintas em seus espectadores. Pois bem, a história de Tom é, de tão simples, um exemplo de roteiro escrito pela vida.
A questão é: ele odiava esquecer das coisas.
Tom trabalhava em uma grande empresa, situada numa das metrópoles mais movimentadas do mundo. "Business" era a palavra do momento.
Em todos os dias, logo pela manhã, dava o elegante nó de Windsor em sua gravata, vestia seu paletó imponente e saía, já com os olhos fixados em sua agenda.
Tom tinha o hábito de selecionar os 10 compromissos mais importantes do dia, e simbolizá-los através de nós com linhas de costura que ficavam em cada um dos dedos de suas mãos. Para cada compromisso, uma cor diferente, e a medida com que fossem cumpridos, a quantidade, obviamente, diminuía.
A solidão sempre quis ser uma parceira constante em sua vida. Mas, por sorte, ele não precisava encará-la durante boa parte do tempo, porque, apesar da correria cotidiana, ele amava alguém.
Sandy era seu nome.
Ela fazia de tudo para que ele não se atrasasse pra nenhum dos laços de seus dedos. Passava, comprava, limpava, cantava, sorria, brincava, torcia! Dessa maneira, Tom só se sentia sozinho enquanto olhava para os números brilhantes do painel dos elevadores de sua monumental empresa.
O que, por si só, já caracterizava o abismo de diferença desse sentimento em relação ao encontrado nos olhos de Sandy.
Por mais que ela o amasse, não conseguia esconder de si mesma o fato de que Tom era frio, automático para com sua presença. Nem sempre foi assim. Ela insiste em pensar que, ao lutar ao seu lado para construir uma vida prazerosa, Tom acabou se empolgando e deixando o desejo de ser ainda maior tomar conta do seu ser.
Mas ela engolia a frustração e continuava a apoiá-lo, a ser a base que ele necessitava para conseguir chegar sempre mais longe.
Até aquele dia nublado, naquela tarde de domingo.
Ela o ligou. Desesperada. Atônita. Atenciosa.
- Tom, eu preciso te ver - disse com o engasgar das lágrimas que se espalhavam pelo seu corpo, dentro e fora.
Mas ele não podia. Tinha o 7º compromisso, o da linha azul, o mais importante do dia, ali, na sua frente, naquela sala cheia de pessoas se enforcando em nós e mais nós de Windsor.
- Mas não se preocupe, logo logo eu saio daqui e vou te ver. Me dê apenas uma hora! - Disse ele, aflito, mas sem ter noção, ainda, do que estava por vir. Nem mesmo ela a tinha naquele momento.
Paletó no ombro. Maleta na mão. Passos acelerados no corredor. Elevador. Hall. Estacionamento. Casa.
Polícia.
Estavam todos lá, tentando manter algum contado com quem quer que vivesse ali. Tom sentia que algo sério havia acontecido, mesmo tentando evitar conhecer esse fato.
- O senhor é marido da Srta. Sandy?
O balançar positivo de sua cabeça se misturava com os movimentos laterais que ela fazia ao tentar negar o que o coração de Tom já presumia.
- Lamento informar que ela sofreu um acidente na Boulevard com a Princetown. Precisamos que o senhor venha conosco para o reconhecimento do corpo.
...
Silêncio. Às vezes, ele dói.
A frieza com que o policial libertava aquelas palavras produzia um contraste monumental se comparadas aos pensamentos de Tom ao ouvi-las.
Ao reconhecer o corpo, Tom lembrou-se de ter sentido seu celular vibrar enquanto estava na reunião. Era uma mensagem de voz enviada por Sandy, constatou após vasculhar um pouco.
"Amor, estou a caminho da casa da minha mãe. Minha irmã me ligou e disse que ela passou muito mal. Estou desesperada...ela está frágil e não pode mais...."
O silêncio que substituiu o barulho forte da batida o fez soltar o celular, que foi de encontro ao chão e se tornou 3, 4 partes fragmentadas, como seu coração.
Tom olhou para os lados e tirou uma linha de costura, na cor preta de seu bolso. Com a outra mão, quebrou o espelho que ficava no banheiro do Instituto, logo ao seu lado, pegando um pedaço dele e sentindo sua capacidade de incisão.
Um último compromisso foi criado.
"Nunca deixá-la sozinha"
Tom se olhou e viu um rosto desfigurado, como aquele espelho depois do soco que recebera, e, a partir daquele momento, ficou em silêncio.
Um último compromisso foi cumprido.

Esse texto me arrepiou.
ResponderExcluirComo as pessoas sempre deixam de lado algo mais importante por causa de compromissos, do trabalho, de manias que criam, por elas próprias.
Maravilhoso texto Alice e Carter.
Grande Beijo.