quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Déjà Vu




É por amá-los demais que não quero que se preocupem tanto comigo. Digo isso de olhos fechados, pois tenho medo do que me espera lá fora, em um lugar onde não posso me refugiar em meus sonhos, em minhas vontades.
Meu nome é Joana. Estou presa. Não quero acordar. Não quero encarar tudo isso.
Mas o dia vem.
Lentamente, meus olhos se abrem. Enxergo um teto rusticamente delineado. As paredes se unem friamente e percebo que o espaço é grande demais para que possa me sentir confortável. Nesse momento, não tenho certeza a respeito do tempo que estou trancada aqui, mas creio que o costume, a familiaridade em olhar cada detalhe desse lugar me indique que pouco não é.
Apesar do terror adquirido pela incerteza, há algo aqui que me atrai. Com a visão ofuscada pelo sono que ainda me perturba, vejo um buraco em uma das paredes. De dentro dele, uma luz me hipnotiza, e me dá uma ideia de tudo que se encontra à sua volta.
Começo a caminhar em direção àquela imagem.

Ingredientes desta visão:
Uma janela. Um criado-mudo. Um portarretrato. Um caderno. Uma caneta. Uma poltrona. Flores.

Entrando em contraste com o ar frio encontrado no restante desse quarto, a luz se apresenta a mim como um refúgio, bem como feito por meus sonhos. É através dela que enxergo as pessoas que me matam aos poucos. Não que seja intencional. Na verdade, saber que elas sofrem por me ver assim é o que me destroi. Essa verdade pisoteia meu coração.
Quando terei liberdade? Quando, enfim, encontrarei as chaves que abrem a porta responsável por me manter aqui, sem respostas, notícias? Por que eu? Por que assim? Por que com eles?
Estão longe, mas, ainda sim, sorrindo, o que me faz sentir que longe nunca estiveram. Ao lado deles, há uma árvore despida de suas folhas, aparentemente vulnerável ao frio, aos ataques da sua própria criadora: a natureza. É um símbolo para mim. Mesmo debilitada, se mantém de pé, melancólica, aguerrida.
Em seguida, meu olhar acompanha o sorriso triste que contorna a vidraça. No cantinho de sua boca, encontro um criado-mudo. Apoiados nele estão um portarretrato, uma caneta, um caderno. E flores. Elas representam a vida. Estão ali para que eu sinta que ela existe, que é bela. Quando você está preso, por mais estranho que possa parecer, o que te salva são os refúgios que consegue encontrar/criar. A sonolência passa, e, então, começo a reconhecer os meus.


A foto

Sou eu. Me vejo muito mais jovem, muito mais feliz. O sorriso é largo, quase que dizendo ao rosto que este não é capaz de hospedá-lo. Meus cabelos contornam sincronizadamente meu rosto. Meu olhar sonha, viaja. Sinto inveja daquela imagem, inveja do que eu era. Inveja da minha liberdade. Ainda sim, é um refúgio para mim. Olhando-a, consigo ter a certeza de que, um dia, fui feliz. E essa alegria não pode ter sido tão sensível a ponto de sumir no primeiro tropeço, não sem batalhar. Essa imagem me acende uma chama, faz meu coração acreditar que o dia em que me livrarei desse martírio está muito próximo. Ela faz com que eu me encare. Sou eu ordenando a mim mesma que venha a ser feliz de novo.


As palavras

Sem elas, dificilmente conseguiria suportar. Seu poder é tão magnifíco que não consigo me imaginar viva caso não houvesse experimentado-o nesta situação. Saíram deles. Meus anjos, minhas criações divinas. E meu amor. Agora, faço questão de transcrevê-las para este caderno. Preciso imortalizá-las. Preciso saber que, a cada dia que fico aqui, possuo ao menos o alento das palavras advindas dos corações das pessoas que mais amo. Elas estão lá fora. Estão acenando para mim. Consigo enxergá-las pela janela. Ainda sim, o elo que possuo são estas frases que me foram entregues momentos antes de ficar presa aqui dentro. Mantê-las é preciso, pois elas me dão força para desejar ouvir mais do mesmo, diretamente da boca de cada integrante da minha família.


As reflexões

Sento-me nesta poltrona e começo a observar todo o resto deste lugar. Ouço o lamento de outras pessoas, mas não consigo enxergá-las, conhecê-las. São ruídos que vagam pelos corredores daqui. Minhas mãos começam a amarrotar meu vestido. A ansiedade toma conta de mim. Preciso controlar minha mente, caso contrário posso perder a força cultivada desde o começo. Reflito. Lembro dos motivos que me fazem querer estar viva. Lembro-me de abraços, beijos, risos. O canto da minha boca se transforma numa curva acentuada para cima. Encontro, por algum instante, a paz. Atrás de mim, a luz me cutuca, me chama. Sentindo seu calor, prometo a mim mesma que me levantarei daqui a alguns segundos. O faço com a certeza de que as mesmas pessoas estarão no mesmo local, agindo da mesma maneira. Sim, elas ainda estão sorrindo, acenando.

Pensando em tudo isso, noto que, provavelmente, há um motivo maior que me propõe experimentar a angústia desse momento, e, enfim, chego à seguinte conclusão:

Em meio à escuridão, percebo que o que mais me assusta é acordar e não ser atordoada por aquela luz forte, que sai daquele buraco em uma das paredes frias e rústicas desse lugar. O medo não existe pela presença, mas sim pela possibilidade da ausência.
Obrigada por demonstrarem amor mesmo quando eu pareça não desejar recebê-lo.


***
Palavras baseadas numa só história e dedicadas a muitas outras.


Alice/Carter.

Um comentário:

  1. "Lentamente, meus olhos se abrem."
    Como é bom fantasiar, adorei seu mundo.
    Voltei sempre!

    (Obrigada pela visita. Entre e fique a vontade em meus sinuosos e rabiscados pensamentos)


    Bons Dias!

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