sábado, 31 de julho de 2010

Vida, Morte e Pensamentos

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Capítulo Final: Pena por Pena


John ainda não se acostumara com a ausência dela, de sua amada, de seu amor. Emi, como gostava de chamá-la, ainda fazia parte de seu cotidiano.

- Hum, Emi, estou atrasado? - dizia ele todas as manhãs, acreditando ainda tê-la ao seu lado.

Ao tomar o café, John olhava fixamente para a cadeira à sua direita - preferida por Emi - tentando materializar sua amada apenas com seus desejos que, naquele momento, o dominavam. 

Aquela doença a levou aos poucos. E não existe nada pior que, aos poucos, ver alguém que amamos partir. A impotência da inutilidade, a sensação de ser apenas um espectador da morte, a frustração de não poder usar sua autoridade de marido para expulsar de Emi aquele destino cruel. Tudo isso fez com que a sanidade de John começasse a depender de anti-depressivos, mesmo ficando claro que estes apenas a domavam temporariamente. 

- Por que você teve que ir tão cedo? Eu precisava tanto da sua presença. Eu preciso tanto da sua presença. Volta, Emi, por favor. Por que não lutou mais, não foi mas forte? Você não deveria ter ido assim. 

John, com suas frases que tinham como único objetivo forçá-lo a acreditar que havia algum motivo pra tudo ter acontecido - mesmo que todas tenham falhado neste propósito -, não conseguia seguir em frente. Sendo assim, naquela manhã de segunda-feira, havia se decidido: o caminho de Emi ele iria seguir. À força. Do alto. No fundo. 

A Ponte Riverstone era o destino, o seu último destino. 

Em seu corpo, a camisa que havia ganhado de Emi um dia antes da fatídica notícia que mudou os rumos das vidas de ambos. Em sua mão, um dos pacotes com a marca "Liang" que carregavam os pães trazidos por Emi todas as manhãs, quentinhos, suculentos. Essa era a lembrança que John tinha naquele momento. Emi, para ele, era uma bela manhã recheada com o mais delicioso café, numa mesa que degustava também a companhia de duas pessoas apaixonadas. E, com essa lembrança, John afundaria no "Lago de Pedra".

Mas uma garota estava a caminho. E ela traria uma notícia essencial para a vida de John. 

- Meu Deus, finalmente encontrei a casa deles. John, espero muito que você esteja aí dentro. Não vá me decepcionar.

- Hey, mocinha! O Sr. John é quem você procura? Ele não está aí. Não adianta tocar essa maldita campainha! - gritou com vigor Dona Gertrudes, vizinha rabugenta e curiosa de John. 

- E a senhora sabe onde ele está agora?

- Ele foi em direção à cidade. Se vira! Eu só sei disso!

- Ok, obrigada. Simpática, não? Bom, só há um caminho para chegar até a cidade. 

E lá se foi Ana, em direção a cidade. Mal sabia ela que seria esse mesmo caminho o real destino de John.

Estando bem próxima da ponte Riverstone, Anna vê um sujeito ao longe, inclinado sobre as bordas da ponte, olhando fixamente para o lago. Ao chegar mais perto, nota o nome "Liang" no pacote que John segura. A curiosidade a consome.

- Não é possível. É muita coincidência! John! - grita Anna, quase arrebentando sua garganta que já não estava muito boa. 

Ele desvia, finalmente, o olhar e o lança à garota. Era ele, ela sabia naquele instante que era. 

- John, você é o John! Sei que parece estranho, mas eu estive à sua procura durante todo o dia!

- Por favor, garota, vá embora. Não é uma boa hora pra conversas.

- O que faz aqui? O que faz olhando esse lago assim?

- Quando sentir que sua vida já não vale mais a pena, vai saber.

- John, escute, eu tenho um recado da Emeline.

O silêncio toma conta do diálogo. 

- John, você me ouviu? Eu tenho um recado dela, da Emeline. 

- Não ouse dizer o que acho que vai dizer. Não brinque, por favor.

- John, eu venho tendo sonhos com vocês. Sonhos recorrentes. Eu estou aqui por conta deles. Acho que Emeline gostaria que eu fizesse algo por você.

- Quem é você?

- Me nome é Anna. Moro na cidade desde que nasci. Emeline está se comunicando comigo, John!

Ao ouvir esta última frase, John sobe na borda da ponte, e olha para Anna, como quem dissesse que ela não deveria tê-lo empurrado lá de cima daquela forma. 

- Não, John! Um cisne!

Anna, segurando o origami que recebeu do Sr. Liang, faz com que John fique perplexo. 

- Pegue, John. É pra você. 

John, estático, apenas olha. Aquele origami era um segredo íntimo dos dois. Como poderia aquela garota ter uma informação assim?

- Pegue, abra, leia. Ela deixou algo para você.

A mão esquerda de John dá uma volta em torno de seu corpo e se estende na direção daquele cisne. Dez dedos desdobram pena por pena aquele cisne. De um lado, o exame que comprovou a doença. Do outro, a salvação de John.

"Meu querido John, sou eu, Emi. Sei que parece estranho me ouvir num momento assim. É que sinto que está chegando minha hora. Saiba que, mesmo indo, vou te amar por toda a eternidade. Porém, preciso exigir de ti uma coisa: siga em frente. Nunca tive um homem que me amasse tanto como você, hoje, o faz. Os momentos que vivi contigo foram os mais preciosos da minha vida. Mas é chegada a minha hora. Gostaria de me despedir de um jeito melhor, mas não tenho forças para te ver chorando, logo à minha frente. Quando receber essa carta, já não estarei mais aqui, tenho certeza. Mas saiba que estarei bem no lugar para o qual estou indo. Já sei como ele é, e lá eu sentirei paz. Sinta também. Siga em frente. Conheça novas pessoas. Dê uma chance a si mesmo. Eternamente te amando, Emi."


Talvez, fosse o que John sabia precisar ouvir. Ela está bem. Ela seguiu em frente. Depois de muito tempo, John solta um suspiro de alívio. Descendo da borda da ponte aos poucos, John percebe que aquela garota o ajudou a continuar sentindo a leveza do ar, o calor do sol, o gosto da vida. Ele, a pé, decidiu seguir em frente, rumo à sua casa. Logo depois de dar dez passos rumo a este destino, tomou mais uma decisão importante.

- Anna, aceita tomar um café comigo?



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